quinta-feira, 19 de setembro de 2013

AS ÁRVORES TAMBÉM AMAM


Por indicação de pessoa amiga do Bairro, há uns anos atrás, fui ler o romance Afrodite, de Isabel Allende.
Da sua leitura, fiquei a saber que a pêra é um fruto erótico, pela forma sensual de mulher que sugere e que originou ao longo dos séculos belissimas peças de arte.
E que a pêra cortada em finas fatias, numa salada a que se juntem agriões e nozes descascadas, é uma entrada especialmente adequada para um jantar de um casal romântico, podendo ser degustadas com os dedos e aspirado o perfume delicioso que exalam, acordando os sentidos do tacto, do paladar, do cheiro e do desejo.
Pensativo, recuei muitos anos, aos meus tempos de adolescência...
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Sempre gostei da flor de pessegueiro. E do fruto maduro. São o resultado maravilhoso de uma árvore sensual que me seduz.
Tinha um no meu quintal no Bairro que dava uns deliciosos pêssegos de cor mate e suaves rosáceas vermelhas, aveludado ao toque.
Ao seu lado uma pereira. Dava umas lindas e doces pêras esverdeadas, de pele fina e macia, que ganhavam uma tonalidade pálida, amarelo claro quando maduras...

Todos os anos o milagre da renovação da natureza se repetia.
Até que, num certo ano, ao contrário dos anos anteriores, as pêras se iam dia a dia tornando avermelhadas, quase da cor escarlate, rutilante, do sombreado dos pêssegos.
Não tinha sido feita nenhuma enxertia na pereira. Apenas era podada na altura própria, que a minha mãe sabia quando e como fazê-lo.
Foi um mistério, sem explicação, as pêras nesse ano e nos seguintes terem amadurecido de cor vermelha quando até aí sempre ficavam amarelas, esbatidas.
O assunto foi falado em casa, mas ao fim de uns dias estava esquecido.

Eu, no entanto, adolescente sonhador ainda imberbe, construí uma teoria, até hoje nunca experimentada, mas que ainda me deixa pensativo, apesar da razão me fazer sorrir e abanar a cabeça com ironia.
As árvores são seres vivos, isso é do domínio comum, é verdade assente.
Quis eu, naquela altura, acreditar que elas não ficavam estáticas, de pé, na solidão da noite. Elas possivelmente amavam-se, entreabrindo as copas, estendendo as raízes em contactos e carícias por elas sentidas, mas por nós não perceptíveis...
E que o chilrear matinal da passarada, que eu ouvia do meu quarto, não era só o dos pardais que se acoitavam nas suas ramagens. No meio desse vozear, imperceptíveis, eu achava que se encobriam e misturavam, disfarçados, os últimos gemidos da pereira e do pessegueiro que lentamente se iam esgotando com o dealbar da aurora, depois de uma noite de amor.

Se a minha teoria estivesse certa, ia ter que arranjar agora, companhia para a solitária laranjeira que eu próprio plantei aos meus nove anos de idade, única árvore que ainda se mantém no meu quintal do Bairro.


Rui Felicio

15 comentários:

  1. Acredito que a tua teoria não deverá estar tão errada como à primeira vista possa parecer!...
    Planta um limoeiro junto da laranjeira, dão-se bem e é amor pela certa. Daqui a uns tempos vais ter umas limoranjas deliciosas, com a vantagem de poderes fazer limonadas e laranjadas com o mesmo fruto!...
    Gostei da história e da teoria!

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  2. Este é, inequivocamente, um bom texto. Será, talvez, repetitivo dizer que o Rui escreve molhando o aparo num tinteiro de prata. Condiz que o seu prosar.

    Condiz com a sua matriz de escritor e de Homem para quem a elevação do espírito, está acima das questões mais terrenas. Quem se lembraria de uma história de amor, entre uma pereira e um pessegueiro ?

    Há, no Rui, uma mente aberta que vai para lá do finito das coisas. Uma forma de ver e de sentir de um amigo que é também um sonhador.

    Eu, que me revejo e me delicio com este prosar, sinto que, também em certos aspectos, passo ao lado dos valores mais comezinhos da vida. Por isso, gosto do muito do que leio do Rui Felício. E gosto de tudo o que valoriza o blog, enquanto espaço de cultura, dando-lhe uma dimensão que vai para além da parte lúdica e por vezes até mordaz, afinal o que pode fazer deste encontro de amigos, um lugar que vale a pena percorrer.

    Obrigado, Rui.

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  3. Olhem que admiração!Claro que as árvores também amam!Olhem o Carvalho, por exemplo... :)

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  4. Ó Rui está aqui um texto que me deixa um pouco perturbado, até agitado, tal é o erotismo que nos transmites só de apreciar a pele macia das tuas peras o avelulado dos pêssegos ou o doce amargo da laranjas!
    Como eu agora percebo a palavra "fruta" no processo Apito Dourado...
    Posso lá ir visitar a laranjeira?

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  5. Claro!
    E uma carvalho com um oliveira?
    No meu quintal tenho uma laranjeira, do tempo da Quinta das Flores, e um limoeiro mais recente. Coabitam bem, mas cada uma dá os seus frutos sem interferências amorosas.
    As do Rui são de outra estirpe!

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  6. Gostei do texto mas estou admirado as peras tornarem-se vermelhas e os pessegos amadurecerem!!.., certamente eu e os companheiros nunca por lá passámos
    Hihihi
    Fernando AZENHA

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    1. Azenha
      Hihihi, que valor tem issso!!!! Aqui nunca roubam uma pêra, uma maçã ou qualquer outra peça de fruta. Isso quem ficaria envergonhado é quem rouba mas desparecerem cento e sessenta e quatro macieiras de um pomar numa noite, como na semana passada sem tapar os buracos, é eficiência.:)

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    2. Não tem valor?!!.., era a maneira de mais ou menos 55 anos complementarmos a refeição de uma peça de fruta quando não havia no nosso quintal e eu tinha um limoeiro/laranjeira e ameixoeira. Mas sabia tão bem as do vizinho e poupava as nossas para outras alturas em que havia falta!!
      Fernando AZENHA

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  7. Tenho e li Afrodite no tempo que tinha ,ainda tenho, por Isabel Allende.
    Esta tua estória baseada no erotismo das árvores está uma delícia.
    Põe lá o limoeiro pois a laranjeira não merece estar só.Ofereço-me para cuidar dele com muito carinho!
    Acredita que tratarei dele.
    A solidão da laranjeira é perturbante!
    Então de vegetais e receitas afrodisíacos, neste livro, Isabel A. apresenta-nos menus excelentes...
    "Dedico estas divagações eróticas aos amantes brincalhões e - porque não? - também aos homens assustados e às mulheres melancólicas" diz Isabel Allende
    Bom texto,Rui.

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    1. Rui Felício
      Pois pudera... umas peras eróticas, pálidas e belas a olharem os machos dos pêcegos vermelhinhos, gostosinhos... o que é que não havia de acontecer nesse tempo... Envergonharam-se.
      Francamente, sem medo de me repetir mas um texto destes vai-se lendo, saboreando e extaziando-nos. Simplesmente : engenho e arte.

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  8. Que maravilha de Conto Felício. Mais um para a funda São.

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  9. É uma poesia soberba. Uma união perfeita: a curiosidade e o sonho dos entes puros. É a poesia esvoaçando ao som de notas de um piano.

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