sábado, 26 de maio de 2012

AS AGRURAS DO SÁ ...


Foto net ...
Em África, bebi muitos cálices de fel. A guerra, a doença e a saudade, faziam parte do quotidiano de cada um de nós, dos que lá mourejavam sem sentido, pela teimosia absurda de Lisboa. Porém, a camaradagem, o espírito de entreajuda e a amizade, ajudavam a digerir aquele caldo de vinagre que nos era imposto. E, na amizade, incluo as patifarias com que nos brindávamos uns aos outros. Afinal, a única forma de afivelarmos no rosto um sorriso ou até uma sonora gargalhada. E são esses momentos, que prefiro recordar, com quem está numa esplanada de praia, a beber em pequenos tragos, um cálice de Licor Beirão. Avancemos, pois.
O homem tinha um nome simples e pequeno. Chamava-se Sá. Apareceu-nos lá um dia vindo de Portugal, de mochila às costas, para iniciar a sua campanha militar. Logo de início, se percebeu que era vaidoso. Cultivava o seu ego e era vê-lo horas ao espelho, a mirar-se e a passar o pente pelo cabelo. E nós de lado, deitados em cima das nossas camas, de sobrancelha franzida, a pensar na melhor forma de lhe sabotar as peneiras. E foi o seu feitio crédulo, o mote para mais uma pirataria. Um dia, quando o Sá penteava pela milésima vez o cabelo e olhava o espelho pendurado num armário, o Moreira disse-lhe: ´´óh Sá, tu estás a ficar careca, pá !!!”. Combinados uns com os outros, nós confirmávamos a coroa de padre bem redondinha, que o homem tinha bem à vista. Foi um drama! A partir daí, o Sá, torcia-se todo, tentando com dois espelhos, ver a parte traseira da sua luminosa cabeça. Na verdade, não havia qualquer ausência de pilosidade. Mas a mentira, repetida tantas vezes, surtiu efeito. Desesperado, procurou ajuda no Cabo - Enfermeiro. Debalde. O Azevedo só percebia de ligaduras e quando dava injeções, espetava a agulha, no mínimo, quatro vezes. Uma carnificina !!!. De cabelos, percebia pouco ou nada. O Amorim, que dava uns jeitos de barbeiro, também não tinha o elixir mágico, que devolvesse a alegria ao pobre Sá.

Foi então que alguém lhe indicou o Alferes Paulo, transmontano meio louco, que era o responsável pelo parque de viaturas do quartel. O Sá, correu então para o seu salvador e da oficina trouxe a receita que teria utilizar meticulosamente todos os dias de manhã. Esfregar uma pequena porção de massa – consistente, no couro cabeludo. E à noite lavar bem a cabeça, antes de se deitar. Esperançado, o infeliz assim fez.

Mas como Deus é justo, quem sofreu fomos nós, os mentores da brincadeira, todos os dias no refeitório a cheirar aquela pasta acre e luzidia, a brilhar no cabelo do Sá.

Há tempos, depois de quatro décadas, encontrámo-nos num almoço de confraternização militar. Sempre a mesma pose. Sempre a mesma vaidade. Mas não cheirava a massa – consistente. Cheirava a água – de – colónia barata, dos Centros Comerciais do Belmiro. Um enjoo !!! Nós os nove, que estávamos à volta daquela mesa e que, por coincidência, tínhamos colaborado na patifaria, de novo fomos penalizados pelos nossos pecados. Realmente, Deus é justo.
Quito Pereira            


11 comentários:

  1. É destas brincadeiras que me lembro muito, só que não tenho a tua capacidade para expôr por escrito.
    Meu amigo: cá se fazem, cá se pagam.
    Um abraço.

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  2. Mais uma "estória" pitoresca da tua passagem pela guerra na Guiné!
    É simples mas evidencia mais uma vez a qualidade do texto e que valoriza bem a camaradagem e boa disposição que vos mantinha unidos nestes cenários de guerra.
    Momentos que depois pela vida fora vão sendo recordados em encontros regulares e que fazem perdurar amizades!

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  3. O Sá, ele próprio, acharia graça a esta estória do Quito.
    E penso que aproveitaria para mudar de água-de-colónia, na altura da próxima confraternização com os seus companheiros de vida militar.
    Se não fosse capaz de, depois de ler este texto do Quito, mudar de atitude, então deixaria de ser Sá e correria o risco de ficar a ser SÓ...

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  4. É bem melhor o "bien être" que "massa consistente"...
    Na próxima,o Sá já vem "Old Spice"...

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  5. E o Quito ora nos faz chorar ora nos faz rir com as suas estórias.
    Espero que o PM não desarme.
    Uma abraço Quito, fico à espera de mais

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  6. Um " intervalo de guerra" que, contado pelo Quito, nos transporta ao cenário real e nos diverte!

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  7. Li esta história do Quito no passado sábado no almoço anual a que fui com a malta da minha "guerra" da Guiné.
    Toda a gente a achou divertida, mas mais do que isso, muito bem escrita!
    Transmito aqui o recado que me foi dado de transmitir ao Quito ( de que aquela malta nunca tinha ouvido falar, é claro )a apreciação e os parabéns dos circunstantes.

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  8. Essa de levares o texto, só teu Felício!!! Naturalmente que tinha voltar aqui, agradecer a tua amabilidade e a dos teus antigos camaradas de armas.
    Aqui não há que distrinçar batalhões ou companhias. Fomos todos marinheiros da mesma nau ...
    Abraço

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  9. Não levei o texto em papel, Quito!

    Mas falei por alto na história que contaste e depois, através do telemóvel acedi ao Encontro de Gerações e, directamente dele li-o em voz alta para todos ouvirem.

    E disse-lhes que me preparava para prefaciar ( não abdico desse desejo...)a tua Colectânea de Contos que esperamos que publiques em breve.

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  10. Meu caro Felício
    Aconselho-te, vivamente, a comprares uma poltrona confortável. É que vais ter que esperar sentado. Bebe uma boa aguardente - velha e revê todos os teus textos do "Escrito e Lido ". Depois publica-os, que eu lá estarei para o lançamento. E vou de véspera, para comermos aquele bife com pimenta e aquela cerveja divinal ...
    Abraço

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  11. Muito boa ! eheheh

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