terça-feira, 24 de outubro de 2017

ANIVERSÁRIO

MARIA TERESA MENESES LOUSADA

24-10-1941

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!




















domingo, 22 de outubro de 2017

O DIA EM QUE A MONTANHA TRAIU OS SEUS FILHOS ...





 Aldeia do Cide

 O Júlio Bicho é um homem bom. Avantajado de corpo e bonacheirão, logo deu nas vistas aos camaradas de armas, quando em batalhão partimos para a Guiné. Fomos, voltámos, e quase todos sobrevivemos. E é essa glória do apego pela vida, que nos faz juntar todos os anos. Ele, o Bicho, vindo lá do Alentejo profundo, aparece sempre. Vem alegre e falador, trazendo sempre com ele um rebanho de família. Também foi assim no passado dia sete de outubro, quando mais de cem almas nos juntámos lá para os lados de Fátima.

A mensagem que me mandavam era devastadora. Um camarada de armas dizia-me e informava a nossa comunidade militar, que uma filha do Júlio Bicho tinha morrido com o marido num dos incêndios florestais que devastaram o país. Informava também que o casal deixava dois filhos menores e que era necessário o grupo militar tomar providências com vista a prestar auxilio às crianças e que para tal era preciso nomear uma comissão de ajuda aos órfãos. Porém, prioritariamente, era preciso dar força e um abraço solidário ao nosso amigo, lembrar-lhe que para além de festas e abraços dos bons momentos, também ali estávamos com ele nas horas amargas.

De mapa na mão e expectativa no coração, partimos de Coimbra na procura da aldeia de Vide, onde eram as exéquias fúnebres. Na medida em que penetrávamos no ventre do país, o nosso coração ia ficando mais negro. Devagar em curva e contra – curva, a paisagem escura tomava conta do cenário. Também casas arruinadas pelo fogo, janelas estilhaçadas e carcaças de carros na margem das estradas de mau piso. Aqui e ali, casas intactas com quintais destruídos. Naquela propriedade queimada, vejo um homem de botas de borracha, que vai deambulando como um sonâmbulo no zénite da desesperança. Pega numa mangueira que olha atentamente e, de imediato, num ato de revolta, atira-a ao chão.Enquanto vou progredindo cauteloso no asfalto, vou olhando as árvores queimadas na berma da estrada, algumas sujeitas a tombar para a via e a necessitar de uma intervenção urgente. Entretanto, aqui e ali, muitas fumarolas e pedaços de madeira a arder e a extinguirem-se, já inofensivos. Era o render do demónio. Lá mais à frente, naquele deserto de gente e de árvores calcinadas, vejo outro habitante. Apesar da proximidade do carro, o homem ignora-me e atravessa a estrada em passo lento. É ainda novo e fixo-lhe uma mortalha de cigarro pendente da boca. Como que atordoado e olhos fixos no alcatrão, parece caminhar sem rumo certo. Curva e contra – curva, chegamos ao destino. Eu e minha mulher somos olhados com a curiosidade dos forasteiros que nunca foram vistos por aquelas paragens. Com expectativa, procuro outros amigos da minha família militar que ainda não tinham chegado. Mas chegaram pouco depois. Foi então que um jovem de camisola negra se abeirou de nós. Disse ser familiar dos falecidos e que até tinha sido ele nas buscas pelos desaparecidos, que os tinha encontrado pelas cinco horas da madrugada, num cenário que me escuso a descrever. Sentada à porta da igreja num banco de madeira, a idosa vestida de negro vai-nos contando a noite de terror e das noites sem fim. Fala-nos nos dois geradores de eletricidade que funcionam nas extremidades da aldeia, para assim abarcar mais gente que necessita de luz. Porém e por vezes, os geradores falham em simultâneo, deixando aquela aldeia no fundo do vale afundada nas trevas da noite e do carvão, com a silhueta das serras queimadas a tornar o cenário mais assustador. Cá fora, algumas mulheres choram baixinho. E eles, os homens, dispostos numa roda, vão contando estórias daquela noite de inferno. Cada um tem um episódio para contar. Mas não choram porque as lágrimas já se lhes secaram.  Olham o futuro partindo de um presente de privações e angústias, agora que as montanhas feridas de morte lhes nega o pão. Mas resistem, como resistem os heróis.

A Raquel e António viviam na aldeia do Cide, um pequeno lugarejo de meia dúzia de casas, encravado no meio de uma montanha. Naquele dia, a montanha  rodeada de outras montanhas, teve um acesso de fúria. Num ápice, tudo o que a vista alcançava começou a arder. O casal, veio então a Vide pôr os dois filhos a salvo, para depois num ato irrefletido e até incompreensível, de novo subirem a montanha em chamas, para irem a casa procurar e reaver alguns documentos e bens. Apanhados no turbilhão do fumo e do fogo, completamente desprotegidos, sucumbiram ao inferno. Tentaram, numa luta desigual, medir forças com o demónio e perderam.

No amplo templo da igreja na penumbra por falta de luz, teve lugar a missa de corpo presente daqueles dois filhos da montanha. Olhando o que me rodeava, fui percebendo que a plateia da gente simples, cantava com um fervor que ecoava pelo templo. A tragédia acicatava-lhes a fé. O Júlio Bicho, o tal homem alegre e folgazão, sentado na primeira fila, era agora um homem pálido, vestido de negro e parecia alheio à cerimónia. Então o Bispo da Guarda falou. De palavra fácil, não entrou em chavões litúrgicos de filosofias difíceis de entender. Nem em discursos piedosos no tributo às duas vítimas. Falou mais nos homens do que de Deus. Privilegiou mais a vida e falou de esperança. Terminou a sua linha de pensamento falando dos povos sós e abandonados, entregues à sua sorte. Acredito que grande parte aquela plateia silenciosa de gente campesina e humilde, não terá entendido a subtileza da afirmação. Mas a entidade que ali estava em representação do Presidente da República, terá compreendido certamente.
Quito Pereira      

             

sábado, 21 de outubro de 2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

REVISTA DE IMPRENSA- CENTRO NORTON DE MATOS NO DIÁRIO DE COIMBRA

                        Para ler  clicar em cima de cada uma das 4 partes da publicação 
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

UM SOPRO DE NOSTALGIA ...







Apenas os muros brancos do Campo Santo, emergem do cinzento da paisagem. Dali, do cimo do morro, apenas se divisa o casario da aldeia. Velhos telhados estrangulados por ancestrais olivais, parecem flutuar ao acaso num ordenamento desordenado. O silêncio é quem mais ordena e, casualmente, apenas o latir distante de um cão, estremece o pasmo do povoado semeado monte acima em aglomerados de quintais, árvores de fruto e chaminés que se erguem ao céu como sentinelas ao vento.

Desço a rua estreita e asfaltada e ali, naquela curva apertada, vejo um homem. Vem em passo lento e cadenciado. Apesar deste dia de fevereiro já parecer um passaporte para a primavera, traz uma samarra pelos ombros. Na mão, como se fosse a extensão do seu corpo franzino, um bordão. Mais do que um amparo, aquele pau que maneja com destreza acompanhando-lhe os passos, é a sua companhia. Também o pequeno cão irrequieto, que vai cheirando as estevas e as barrocas, na procura de alguma novidade que o faro lhe pressente. Depois, numa pequena poça, vai bebendo sofregamente água. Com a sua língua comprida, vai armazenando em movimentos sincronizados e rápidos, o líquido barrento que a pequena charca lhe oferece.

O caminhante cruza-se comigo e fixo-lhe o rosto franzino. É o António Vaz. Ele, depois de uns segundos de mutismo, reconhece-me e igualmente quem me acompanha. Então falou. Falou dos seus noventa e três anos de idade. Falou dos seus “chãos”, que ainda vai tratando como pode. E, apesar de viver sozinho, porque há muito que a sua dedicada irmã partiu, não falou de saudade nem da solidão que lhe vi nos seus olhos pequenos e conformados. Depois, despediu-se de nós. Especado no meio da estrada, fui-lhe acompanhando a ausência, até que desapareceu na curva de uma fazenda. Não sei se o voltarei a ver, porque curto já é o caminho.Sei, apenas sei e recordo, dos dias em que o António Vaz preparava a malga onde os parceiros à volta da mesa tosca, comiam as batatas com atum na taberna do velho Real. Sei, apenas sei e recordo, da salada alface e tomate, regada generosamente com o azeite fino do Juncal do Campo, um regalo para a vista e para o paladar. Sei, apenas sei e recordo, do garfo que era o único talher que ia passando de mão em mão, naquela fraternidade partilhada. Sei, apenas sei e recordo, dos pequenos copos de vidro, já baços de tanto uso, que corriam pela mesa, prenhes do vinho tinto que escorria a compasso pela torneira da velha pipa de madeira. Sei, apenas sei e recordo, que quando o Vaz se despediu, olhei a pacatez da aldeia que parecia ter-se escoado por um ralo, morta de solidão.

Agora que navego por outras realidades, outros mundos de janelas abertas de par em par mais perto do mar Atlântico, estranhamente e com surpresa, senti nos meus olhos cansados, um leve sopro de nostalgia.
Quito Pereira    

ANIVERSÁRIO

MARIA FERNANDA CANELAS

            NANDA CANELAS

17-10-1946

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!